Ao assistir Saraband, último filme do genial Ingmar Bergman, lançado em DVD recentemente, e notar que sua competência continua a mesma, cheguei à conclusão de que está se aposentando o maior cineasta da história.
Mesmo hoje, com as inúmeras possibilidades tecnológicas que a indústria oferece, ele faz um filme que privilegia a densidade do roteiro e a qualidade dos atores, mostrando com maestria que para se fazer cinema de qualidade não se precisa mais do que isso, além de uma direção competente.
Eu adoro filmes grandiosos, cheios de efeitos... Mas Bergman nos mostra que sem essa “espinha dorsal’, maravilhas tecnológicas de nada adiantam (pelo menos para o público que ainda vê o cinema como arte).
Que a tecnologia seja usada em prol da arte é ótimo. É uma evolução. Mas a tecnologia ser usada em detrimento da arte, a colocando em segundo plano, ou até mesmo excluindo o conceito artístico, como tem acontecido cada vez mais, é um retrocesso a que o cinema está exposto, já que é um negócio e todo negócio tem que dar lucros.
E cineastas como Bergman não dão lucro...
Talvez por isso, temos às vezes 10 estréias por fim de semana e tantas seqüências e refilmagens...
Acho interessante saber as influências de artistas cuja obra admiramos.
Isso nos faz aumentar nosso leque de conhecimento e experimentar sensações parecidas que esses artistas tiveram quando sentiram o “orgasmo” que poucos filmes, músicas e livros proporcionam...
Ainda mais interessante é quando essas influências são colocadas em forma de homenagem e referências, como no caso de Woody Allen em relação ao próprio Bergman.
Em Maridos e Esposas, quando o personagem de Allen em diálogo com Mia Farrow lembra como uma madrugada sem sono e perdida se tornou ótima quando eles assistiram Morangos Silvestres na televisão. Ou em Annie Hall, quando devido ao atraso de Diane Keaton no cinema, Allen decide não ver o filme de Bergman, pois a sessão já tinha começado há 3 minutos e ele não assiste nenhum filme que já tenha começado.
As inúmeras referências pop de Tarantino, os diálogos sobre discos e os “top 5” de Alta Fidelidade (de Stephen Frears, baseado no livro de Nick Hornby), o sonho e a concretização de ser um repórter da Rolling Stone em Quase Famosos (baseado na própria experiência do diretor Cameron Crowe)... Isso só para citar alguns.
Sem contar as referências técnicas, como a do afastamento, em que personagens “saem” da trama para falar diretamente ao expectador, que Bergman usou com maestria e influenciou não só Woody Allen, mas até Lars Von Trier em Os Idiotas.
Pena que Saraband seja o último filme de Bergman, um artista na grandiosidade do termo, não um escapista, não um comerciante, não um leão em busca de lucros, nunca um submisso ao mercado. Nunca alguém que apenas quer expor suas mercadorias numa prateleira...
E pena que talvez por influência da banalização da arte e da visão de lucro, que nos “enche a lata” de obras cada vez mais sem conteúdo, talvez por conta de minha pobre alma melancólica, não é sempre que estou disposto a ver um filme da densidade de Gritos e Sussurros...